O ajuste da dupla tributação obriga produtores, distribuidores e restaurantes a repensar preços, portfólios e margens em 2026.
2026 está emergindo como um ponto de viragem para o negócio de destilados. O aumento do IVA para 19% e a entrada em vigor de um novo imposto sobre o consumo não são simples ajustamentos técnicos: em conjunto obrigam a uma mudança drástica na estrutura de preços destas bebidas e reconfiguram as regras do jogo para toda a cadeia.
Até agora, o preço final dos destilados baseava-se num delicado equilíbrio entre carga tributária, volume de vendas e percepção de valor. Esse equilíbrio é quebrado quando dois impostos impactam simultaneamente o mesmo produto, elevando diretamente o custo e reduzindo a margem de manobra dos atores do setor.
Para produtores e importadores, o efeito é imediato. O aumento do imposto é transferido para o custo base do produto, encarecendo estoques, fluxos de caixa e capital de giro. Num negócio onde o tempo de rotação é fundamental, cada ponto percentual adicional torna-se pressão financeira.
No elo de distribuição, o ajuste obriga a redefinir tabelas de preços e condições comerciais. O custo tributário mais elevado não afeta apenas o preço unitário, mas também as estratégias de descontos, promoções e acordos de volume que tradicionalmente sustentam a demanda em canais especializados.
O impacto torna-se mais visível em bares, restaurantes e hotéis, onde as bebidas espirituosas desempenham um duplo papel: são um produto e, ao mesmo tempo, uma âncora de rentabilidade. Um aumento significativo no preço de compra reduz a margem por copo e prejudica a equação entre rentabilidade e competitividade para o consumidor.
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Aqui surge o dilema central do negócio em 2026: repassar completamente o aumento para o cliente final ou absorver parte do golpe. O aumento dos preços protege o dinheiro, mas arrisca o volume. A contenção do aumento preserva a procura, mas corrói as margens num ambiente já pressionado por outros custos operacionais.
O novo cenário obriga a uma segmentação mais clara do portfólio. Os destilados premium e super-premium, com um consumidor menos sensível ao preço, poderiam absorver melhor o impacto. Em contrapartida, as referências de entrada permanecem numa zona crítica, onde pequenos incrementos podem alterar a decisão de compra.
Esta mudança fiscal também redefine o papel do destilado na oferta gastronómica. Em muitos casos, deixará de ser um produto amplamente rodado e passará a ser um consumo mais ocasional, reservado para momentos específicos e com maior carga simbólica do que diária.
Do ponto de vista empresarial, o ajustamento leva-nos a rever a engenharia de preços. O valor já não se explica apenas pela marca ou pela origem, mas pela experiência que envolve o consumo: atendimento, cocktails, harmonização e narrativa. O preço sobe, mas deve fazê-lo acompanhado de uma proposta mais sólida.
O aumento do IVA e o novo imposto sobre o consumo também têm um efeito psicológico. O consumidor percebe o destilado como “mais caro”, antes mesmo de comparar alternativas. Essa percepção influencia o ticket médio, a frequência de consumo e a escolha de bebidas substitutas.
Para o sector formal, o desafio é maior. A carga tributária passa a ser um fator que exige disciplina financeira e rigoroso controle de estoques. Cada garrafa imobilizada na adega representa um custo superior ao dos anos anteriores.
Neste contexto, a estratégia de preços deixa de ser anual e passa a ser dinâmica. Ajustes graduais, revisão constante de custos e leitura permanente do comportamento dos clientes tornam-se práticas essenciais para não perder competitividade.
A mudança também abre um debate fundamental sobre o modelo de negócios. Com a subida dos preços, a rentabilidade dependerá menos do volume e mais da gestão eficiente, do volume de negócios inteligente e da capacidade de capturar valor em cada venda.
O aumento do IVA para 19% e a nova marca do imposto sobre o consumo, enfim, um antes e um depois. Esta é uma mudança estrutural que obriga o sector a repensar preços, estratégias e expectativas num negócio onde cada decisão fiscal se reflecte, de imediato, no copo do consumidor.
Destilados mais caros
Embora os impostos sobre as bebidas alcoólicas não sejam novos, o cenário que se apresenta para 2026 representa uma pressão adicional sobre os preços, especialmente num contexto de desaceleração do consumo e de margens cada vez mais apertadas para bares, restaurantes e lojas especializadas.
No caso do whisky, produto largamente importado, o efeito é duplo. Ao IVA de 19% soma-se o imposto sobre o consumo, o que aumenta significativamente o preço na prateleira. Para referências de gama média e alta, o ajuste pode traduzir-se em aumentos visíveis para o consumidor final, afetando as decisões de compra e a frequência de consumo.
Em termos práticos, o ajustamento fiscal traduzir-se-á em aumentos de dois dígitos nos produtos de grande movimentação. O caso mais representativo é o das bebidas alcoólicas, bebida carro-chefe do consumo local e elemento-chave do fluxo de caixa de milhares de estabelecimentos gastronômicos do país.
Uma garrafa de destilado de 750 mililitros que hoje é vendida por cerca de US$ 50 mil poderá custar cerca de US$ 63 mil em 2026, uma variação próxima a 26%, valor que nos obriga a repensar estratégias de preço, apresentação e volume de vendas.
O impacto também será significativo na cachaça, categoria que vem ganhando espaço em coquetéis e consumo premium. Um produto que atualmente é vendido por cerca de 55.800 dólares poderá chegar aos 70.470 dólares, valor que já inclui o IVA e o imposto associado ao seu teor alcoólico de 35 graus.
No segmento do whisky, tradicionalmente mais sensível ao preço, o efeito será ainda mais visível. As garrafas que atualmente custam cerca de US$ 63.980 podem chegar a US$ 80.313 após a aplicação dos novos impostos, tornando uma categoria-chave mais cara para bares noturnos e restaurantes de preço médio e alto.
Marcas e distribuidores de uísque já avaliam cenários de repricing para 2026. Em muitos casos, o aumento não poderá ser absorvido pela cadeia comercial e acabará sendo repassado ao cliente, o que poderá desacelerar um segmento que vinha apresentando recuperação após os anos mais difíceis da pandemia.
Brandy, por sua vez, enfrenta um panorama diferente, mas igualmente desafiador. Por se tratar de uma bebida de produção nacional e de alto consumo popular, qualquer reajuste de preço impacta diretamente no volume de vendas. A aplicação do IVA de 19% e do imposto sobre o consumo redefine o preço final de uma bebida que historicamente tem sido sensível ao bolso do consumidor.
Para departamentos oficiais e lojas de bebidas, a mudança tributária abre um debate complexo. Por um lado, o imposto representa uma fonte importante de receitas fiscais; Por outro lado, um aumento excessivo no preço poderia incentivar a informalidade ou a substituição por outras bebidas alcoólicas com menor carga tributária.
Em bares e restaurantes, o efeito será imediato nos cardápios. O whisky, utilizado tanto para consumo direto como para cocktails premium, sofrerá aumentos que nos obrigarão a rever preços, porções ou estratégias comerciais para não afetar a rotação. A aguardente, tradicional em comemorações e consumo em grupo, também exigirá ajustes que poderão impactar na percepção de valor.
O novo cenário tributário surge num momento em que o setor gastronômico ainda enfrenta desafios estruturais: elevados custos operacionais, menor poder de compra do consumidor e concorrência cada vez mais intensa. O aumento dos impostos sobre os destilados contribui para esta equação e obriga a tomar decisões estratégicas.
Do ponto de vista do consumidor, o impacto far-se-á sentir no preço final de cada garrafa e de cada bebida. O uísque poderá consolidar-se ainda mais como produto de consumo ocasional, enquanto as bebidas espirituosas poderão enfrentar uma queda no volume se o aumento exceder determinados limites de tolerância do mercado.
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